Dossiê de Inclusão
UNIDADE 1
Quando realizei o Curso Normal Médio (magistério) não havia nenhuma disciplina que tratasse dos portadores de necessidades educacionais especiais, porém, ao realizar o estágio previsto pelo curso trabalhei com uma turma de 1ª série, onde havia dois alunos com deficiência auditiva (surdos). O meu papel de alfabetizadora junto ao compromisso que assumi fez com que eu tivesse consciência de que havia de alfabetizar todos e para isso tive que buscar novos conhecimentos. Contei com o auxílio dos profissionais da escola para surdos na cidade de Torres, que possui uma classe especial para surdos, em uma escola pública de ensino regular onde obtive as informações necessárias, bem como, materiais sobre a linguagem de sinais.
Perante esta experiência tive muito interesse em conhecer mais sobre o trabalho com portadores de necessidades educacionais especiais e realizei trabalho voluntário durante dois anos na APAE de Três Cachoeiras, e mais tarde fiz o Curso de Capacitação em Recursos Humanos na Área da Deficiência Mental. Estagiei em duas turmas, Ciclo I e EJA, compreendendo assim, como é feito o trabalho educativo com os portadores de necessidades educacionais especiais. O trabalho na APAE envolve toda a complexidade das deficiências que os indivíduos apresentam, e oferece além do pedagógico o atendimento clínico (multidisciplinar). Acredito que uma das principais diferenças entre o ensino regular e o ensino especializado é que no ensino regular ainda perpetua a idéia de uma aprendizagem de núcleo comum, há “objetivos” traçados a serem alcançados com reflexos diretos na avaliação, enquanto que o ensino oferecido na instituição especializada objetiva o desenvolvimento de cada indivíduo sem patamares de conhecimentos e aprendizagens pré-estabelecidos, respeitando o tempo e a limitação do aluno.
Mas adiante falarei do estudo de caso que realizei durante o período de estágio na APAE, experiência esta muito importante para conhecermos melhor o público com que exercitamos nossa docência. Nos últimos anos tentamos mobilizar a sociedade de Três Cachoeiras para criação de um Conselho Municipal do Portador de Necessidades Especiais, com o intuito de contribuir e auxiliar a criação de políticas voltadas para estes. As últimas informações que tenho são otimistas e em breve será uma proposta alcançada.
UNIDADE 2
Trabalho na Escola Municipal de Ensino Fundamental Fernando Ferrari, localizada na zona rural de Três Cachoeiras que “acolhe” crianças de diversas comunidades dos seus arredores, é uma escola pólo. Atende atualmente 200 alunos, e possui um corpo docente de aproximadamente 22 professores e oferece pré - escola, anos/séries iniciais e finais do ensino fundamental de 8 e 9 anos.
Constata-se atualmente um crescimento no número de alunos com necessidades educativas especiais, mais especificamente, alunos com dificuldades de aprendizagem. A incidência é maior nas séries iniciais, e hoje o número de alunos com necessidades educativas especiais gira em torno de 18 alunos, estes recebem atendimento educativo especializado na APAE, Escola de Educação Especial João-de-Barro, no município de Três Cachoeiras. O atendimento acontece por meio de profissionais como pedagogos, psicopedagogos, psicólogos e outros no contra turno, onde os professores destes alunos também recebem apoio da instituição APAE, assim como os familiares.
Percebo que a intenção que se tem com esta forma de “suporte” para os alunos com necessidades educativas especiais é de promover alternativas e meios que possam auxiliar o processo de aprendizagem dos envolvidos, porém tenho refletido que esta intenção tem ferido a proposta de inclusão no sentido de que, a própria instituição de ensino regular deveria garantir uma intervenção de sucesso para seus alunos considerados diferentes. É o que o Artigo 58, § 1º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de dezembro de 1996 ressalta: “Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender as peculiaridades da clientela de educação especial”.
Os alunos “diferentes” que discuto neste relato, em relação à Escola Ferrari não de trata de deficientes mentais, autistas, ou portadores de altas habilidades, pois a escola não apresenta nenhum destes casos específicos.
[...] os alunos “da educação especial” tem uma presença incerta nas estatísticas educacionais, considerando-se a reduzida oferta de serviços, as limitações no processo de identificação desses alunos e a extrema precariedade numérica de efetivo atendimento (Baptista, 2004, p.4).
Esta citação dá conta do que considero ser a realidade das escolas da rede regular de ensino, porque ao invés da promoção de efetivo atendimento, aumento da oferta e busca por melhores condições de atendimento, a mesma procura “transferir” essas responsabilidades às instituições de educação especial. Considero que esta não é a proposta de inclusão no seu amplo sentido.
Outro ponto que considero importante é a resistência que muitos educadores apresentam de desprenderem-se do predomínio de um “edifício didático”, das metodologias empiristas, portanto, diretivas. Esta resistência compromete a possibilidade de evoluirmos, de atendermos aos desafios da educação, de fato inclusiva. As metáforas do “edifício e da tenda” proposta pelo texto “A inclusão e seus sentidos: entre edifícios e tendas”, escrito por Claudio Roberto Baptista são muito importantes para que nós educadores passamos a refletir sobre os desafios da educação, bem como, sobre o ato educativo/inclusivo/integrador.
Estabelecer estas relações é fundamental para vislumbrarmos nossos percursos na prática docente, ou seja, a “construção de tendas”.
UNIDADE 3
O cenário da Educação do Município de Três Cachoeiras é composto por três escolas de ensino regular da rede municipal, sendo que uma de Educação Infantil, cinco escolas da rede estadual, duas infantis particulares, uma Escola Técnica particular e uma Escola De Educação Especial João-de-Barro, filantrópica, a APAE.
Dentre as dez escolas existentes, apenas duas da rede estadual de ensino oferece Sala de Recursos, que trabalha especificamente as necessidades educativas especiais e a APAE que atende os alunos da rede regular na oferta de serviços especializados. A APAE, Escola João-de-Barro oferece serviços especializados como: estimulação precoce, terapia ocupacional, psicologia, psicopedagoga, fonoaudióloga, ludo terapia, fisioterapia, assistência social, etc.
O número de alunos atendidos pela APAE oriundos do ensino regular das distintas redes de Três Cachoeiras é algo que não tenho conhecimento, apenas sei que a demanda é significativa, pois não é uma tarefa muito fácil conseguir “vaga” para alguns serviços oferecidos devido ao grande número que atende. A Escola Municipal de Ensino Fundamental Fernando Ferrari e as demais escolas usufruem destes serviços.
A Constituição Federal de 1988 a e Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional trazem pressupostos que prevê o atendimento educacional especializado na rede regular de ensino, o que perante este contexto relatado, percebe-se que ainda não corresponde a nossa realidade.
O texto Atendimento Educacional Especializado – concepção, princípios e aspectos organizacionais, de Denise de Oliveira Alves e Marlene de Oliveira Gotti nos apontam o desafio da educação brasileira na perspectiva da inclusão:
[...] o desafio da educação brasileira é a implementação da política educacional de acesso, da qualidade e da equidade com a organização das escolas que atendam a todos os alunos sem nenhum tipo de discriminação e que reconheçam as diferenças como fator de enriquecimento do processo educacional (ALVES, p.268, 2006).
Este desafio, portanto está sendo percebido e também aclamado por uma grande parcela da população, entre elas, alunos, familiares, profissionais da educação e outros.
Nesta semana a Secretaria Municipal de educação nos informou que percebe a necessidade de implantar Salas de Recursos (Multifuncionais) nas escolas da rede e está tomando as providências para a efetivação desta proposta ainda no presente ano letivo, isso também se deve às exigências que o MEC vem fazendo através do PAR – Plano de Ações articuladas realizado nos meses de janeiro e fevereiro do corrente ano por uma equipe de mais de 15 profissionais do município com o auxílio de uma consultora do MEC.
[...] Cabe as secretaria de educação avaliarem as demandas oriundas das escolas de sua rede no que se refere à organização e autorização de abertura de salas de recursos para a realização do atendimento educacional especializado (Ibid., p.269,2006).
Contudo, creio que o próximo passo será a formação específica para os professores que irão atuar nas Salas de Recurso. Realizei o curso de Capacitação em Recursos Humanos na área da Deficiência Mental, e sei o quanto tem valia e o quanto acrescentou na minha formação, porém foi muito focado na deficiência mental, e sei que o atendimento educacional especializado não se restringe apenas a este público.
Estudo de caso
O aluno selecionado para o Estudo de Caso é F.Q.C. nascido no mês de outubro de 1998, na cidade de Torres, onde seu teste do Apgar5 apontou nota 7. Iniciou sua escolaridade em 2005 aos 6 anos quando cursou a pré escola na Escola Municipal de Ensino Fundamental Fernando Ferrari. O parecer da professora do Pré apontava algumas dificuldades em relação à atenção e ao alfabeto, pois não reconhecia as letras do seu próprio nome e foi reprovado por não ter alcançado a alfabetização. Em 2007 cursou o 2° ano do Ensino Fundamental de 9 anos, equivalente a 1° série, e a professora regente detectou que F.Q.C. apresentava dificuldades em calcular, bem como, na alfabetização, e resolveu promovê-lo para o 3° ano, desde que os pais se responsabilizassem pela sua freqüência na APAE, e aulas de reforço na escola.
Já em 2008, F.Q.C. cursou o 3° ano, não atingindo os objetivos da série e foi reprovado.
Iniciou em 2009 mais uma vez o 3° ano, e no final do mês de março, a professora, percebendo tamanha defasagem em relação aos demais colegas, pois não concluiu sua alfabetização, com o apoio de uma coordenadora pedagógica e aceitação dos pais foi reconduzido para o 2° ano, considerando-se ser mais viável para sua alfabetização.
Desde o início de sua escolarização percebeu-se acentuadas dificuldades em sala de aula, e pelo fato do estabelecimento de ensino o qual pertence não oferecer atendimento educacional especializado, fez-se o encaminhamento de F.Q. C. para a APAE com a intenção de que fosse realizada uma avaliação mais detalhada sobre o caso. A psicopedagoga solicitou atendimento fonoaudiológico, que também o encaminhou para uma avaliação neurológica. Em 2008, saiu o primeiro laudo médico, diagnosticou-se Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
UNIDADE 4
A família de F.Q.C. é composta por ele, seu irmão de oito anos de idade, atualmente cursando o 2º ano do Ensino Fundamental de 9 anos, sua mãe C.L.Q.C., não trabalha fora, cuida do lar e esporadicamente auxilia nos afazeres do esposo e se pai A.C.C., agricultor, cultiva banana e outras frutas. A mãe é analfabeta e o pai cursou a 2ª série do Ensino fundamental.
F.Q.C. , de 10 anos de idade, mora no interior do município de Três Cachoeiras, na localidade de Chapada dos Mesquitas, onde o acesso a escola se dá por meio de transporte escolar.
As condições socioeconômicas da família são razoáveis, pois a única renda é oriunda da agricultura e, no entanto oscila bastante, havendo meses em que o pai consegue manter os gastos com alimentação, escola dos filhos (materiais escolares), saúde, enfim, porém em outros meses a renda é insuficiente.
UNIDADE 5
A primeira avaliação feita sobre o desenvolvimento de F.Q.C. foi na pré escola, onde a professora da classe notou que o aluno em questão apresentava dificuldades na comunicação, pois a fala era bastante comprometida e ainda, percebeu que o aluno tinha dificuldades em se concentrar. A mãe relatou que nunca notou qualquer dificuldade no desenvolvimento de seu filho até a idade escolar.
Na primeira série, F.Q.C. não consegui se alfabetizar e foi aí que a professora regente preocupada com as dificuldades que seu aluno vinha apresentando realizou um parecer para que a partir dele fosse feito um encaminhamento para uma avaliação mais detalhada sobre as dificuldades que apresentava e a APAE o recebeu e logo o encaminhou para atendimento fonoaudiólogo. A técnica fonoaudióloga percebeu que não se tratava apenas de distúrbios de linguagem e pediu um encaminhamento para avaliação neurológica e foi aí que se teve o primeiro diagnóstico, TDAH, ou seja, transtorno de déficit de atenção com hiperatividade.
A partir deste diagnóstico a aluno F.Q.C. passou a receber atendimento educacional especializado, com fonoaudióloga e também psicopedagoga duas vezes por semana, no contra turno, e também faz uso de medicação controlada pelo neurologista.
Não consegui se alfabetizar até o momento encontra-se Pré-silábico de acordo com avaliação da professora e coordenadora pedagógica, visto que a escola trabalha com a metodologia Pós Construtivista, baseada na teoria e nas contribuições de Emília Ferreiro e Esther Pillar Gross.
CONTINUAÇÃO DA UNIDADE 5
HISTÓRIA DE VIDA DE F.Q.C.
Através da pesquisa que realizei sobre a vida escolar de F.Q.C. na instituição de educação especial da qual o aluno recebe atendimento complementar, a APAE, angariei alguns dados que considero pertinentes.
Na Anamnese analisada consta que a mãe durante a gestação teve anemia e infecção urinária e o parto foi de cesárea. Nasceu com 47 cm, pesando 2k050gr, passou 24 horas na incubadora após seu nascimento e não foi amamentado pela mãe.
Caminhou com um ano e dois meses, e com um ano e quatro meses passou a controlar as esfíncteres. Aos dois anos de idade teve a primeira convulsão e então, passou a ter acompanhamento neurológico. Em 2004, o neurologista infantil solicitou o exame EEG onde constaram alterações.
Em 2005 iniciou o pré-escolar e fazia uso da medicação Gardenal. Em agosto de 2006, F.Q.C. passou a ter atendimento psicopedagógico, pois a hipótese levantada na avaliação da psicopedagoga condizia com aluno com dificuldades de aprendizagem, com maior ênfase na estruturação espaço e tempo, percepção visual e concentração, e por este motivo, o atendimento foi focado nas áreas defasadas.
Tal avaliação compreendeu informações das áreas de desenvolvimento motor, cognitivo e afetivo social...
Em abril de 2008, o neurologista através de exames específicos diagnosticou que F.Q.C. apresentava TDAH e o encaminhou também para acompanhamento com fonoaudióloga para atender as dificuldades na fala que o aluno apresentava. Neste mesmo ano, a professora do ensino regular foi comunicada do diagnóstico e orientada a trabalhar individualmente com F.Q.C.
O aluno passou a receber atendimento no contra turno na escola de ensino regular, denominado Reforço. Passou a ser medicado com Ritalina e apresentou melhora de comportamento, porém, continuou com as mesmas dificuldades, segundo avaliação da professora e da psicopedagoga.
UNIDADE 6
COMPORTAMENTOS OBSERVÁVEIS NA ESCOLA
F.Q.C. relaciona-se bem com os professores e colegas da turma, assim como com os funcionários, demonstra zelo, carinho e afeto pelas pessoas a sua volta. É calmo, respeita a todos, não é egocêntrico, sabe partilhar, esperar a sua vez, enfim.
No que se refere à aprendizagem não está alfabetizado, mas apresenta crescimento e principalmente, desejo de aprender.
Quanto aos movimentos de inclusão da escola percebo que se trata de iniciativas muito lentas, não há adaptações curriculares, pois é trabalhado em sala de aula da mesma forma com todos, como se todos aprendessem de maneira igual e ao mesmo tempo; a avaliação está focada em resultados sem se levar em conta o processo de desenvolvimento singular do aluno, e os serviços de apoio se resumem em aulas de reforço de defasagens de conteúdos nas áreas da matemática e da língua portuguesa, repetindo a sala de aula em turno inverso.
Não percebo movimentos para a inclusão deste aluno, visto que não recebe no ensino regular uma educação diferenciada dos demais que venha a contemplar as necessidades de F.Q.C. e outros.
O envolvimento da família no processo de inclusão é precário. Precário porque os pais de F.Q.C. desconhecem o que seu filho deveria estar recebendo enquanto atendimento educacional especializado, e, no entanto contentam-se com o que lhes é apresentado como devido na educação/escolarização de F.Q.C.
É muito intrigante a história escolar de F.Q.C. visto que cursou o pré, depois a 1ª série em 2006 onde foi reprovado sob a alegação das suas dificuldades e reclassificado para o 2º ano, série equivalente a 1ª. Em 2007, cursou o 2º ano e não se alfabetizou, mas foi promovido para o 3º ano. Em 2008 cursou o 3º ano e por não atingir novamente a alfabetização foi reprovado. No início de 2009, cursando o 3º ano passou por avaliação de uma coordenadora pedagógica que junto a outros professores decidiram retroceder F.Q.C. para o 2º ano com a alegação de que a alfabetização é objetivada no 2º ano e que desta forma diminui-se a disparidade de aprendizagem que há entre o aluno e seus colegas, atenuando as diferenças para que F.Q.C. possa ficar mais a vontade para se desenvolver e ser alfabetizar-se.
Frente a todo este contexto, a família se posiciona com certa neutralidade, pois acredita que as decisões tomadas pelos professores sobre a vida escolar de seu filho intencionam o melhor para F.Q.C. segundo a própria mãe.
Estas são as informações obtidas para esta unidade.
UNIDADE 7:
AVALIAÇÃO
As idéias trazidas nos textos desta unidade propiciaram o entendimento de que a avaliação é um processo contínuo, com função diagnóstica e investigadora. As informações adquiridas na avaliação deveriam contribuir para o redirecionamento da ação pedagógica, reorganizando as próximas ações do professor, do aluno, do coletivo a fim de avançar no entendimento e desenvolvimento do processo de aprendizagem dos envolvidos.
O texto Práticas educativas: Perspectivas que se abrem para a Educação Especial, escrito por Anna Maria Lunardi Padilha traz um relato sobre uma experiência com uma jovem deficiente mental, Bianca, onde se faz possível muitas reflexões e considerações.
A experiência relatada por Padilha tem relação com o Estudo de Caso realizado nesta interdisciplina, pois se trata de investigações e diagnósticos sobre alunos com necessidades educativas especiais. O Estudo de Caso tem relação direta no sentido de que ao investigar um indivíduo, contatamos suas peculiaridades, identificamos especificidades e a partir daí faz-se possível avaliar segundo seu contexto, estabelecendo onde e como se deve avançar.
No texto mencionado, minha atenção se refere à seguinte citação: “A avaliação clínica/institucional do deficiente mental tem levado à simples constatação das “faltas”: sensoriais, motoras, verbais, cognitivas (PADILHA, 2000, p.206)”. A relação desta citação com o estudo de caso que realizei me permitiu perceber que tanto as avaliações sobre F.Q.C obtidas no ensino regular quanto no atendimento educacional especializado se reduzem a identificação de suas defasagens e complexidades, mas não tiveram interferência na ressignificação da prática pedagógica a ponto de qualificar o que está sendo oferecido e propiciado na sua vida escolar para o seu desenvolvimento, nem mesmo para contextualizar as avaliações trimestrais sobre F.Q.C. , no sentido de que no ensino regular este indivíduo é avaliado em comparação com os outros, sem a consideração de suas particularidades.
F.Q.C. é considerado um sujeito com necessidades educacionais especiais por apresentar-se em condição de desvantagem, ainda que, possa ser temporária, exigindo o envolvimento do professor para conhecê-lo mais profundamente, a fim de que seja possível estabelecer uma interação que possa contribuir na formação da vida deste indivíduo. Esta contribuição só será possível quando a prática docente for redimensionada, inserindo este aluno num ambiente educativo desafiador, pautado no respeito às diferenças.
Ao contemplar o trabalho com o diferente a escola passa a encarar o inesperado como elemento integrante do cotidiano escolar. O acolhimento do aluno que representa o inusitado coloca-a, necessariamente, a repensar com profundidade seu papel e funções. O caminho que leva estas transformações aponta para uma reflexão coletiva sobre os objetivos educacionais, os quais deverão envolver os alunos como um todo, analisados sobre todas as suas perspectivas vinculadas, não somente a políticas educacionais, mas a sociedade como um todo (PISTÓIA, 2002, p.5).
As descobertas oportunizadas pelo Estudo de Caso de F.Q.C. me permitiram constatar que os professores ao longo da sua experiência pedagógica apresentam dificuldades em lidar com especificidades, muitas vezes, por falta de conhecimento e esclarecimento, também por fazerem parte de uma estatística que condiz com a formação precária quanto às diferenças existentes no contexto escolar.
Certamente, o enfrentamento como o inusitado e o desconhecido é um dos fatores que deixam os professores aterrorizados ao se depararem com alunos em situação de desvantagem em sala de aula. Uma das primeiras angústias apontadas por eles é a respeito da falta de qualificação para tratar com este “tipo de aluno” (Ibidem, p.10).
Estas considerações nos levam a constatar o quanto o processo de inclusão de alunos com necessidades educativas especiais ou em situação de desvantagem carece de práticas educativas que respeitem tais diferenças e especificidades.
Portanto, creio que as maiores contradições em relação ao que foi observado é que a avaliação que deveria nortear o trabalho pedagógico, orientar os profissionais e estabelecer as necessidades dos alunos tem servido para classificá-los, e muitas vezes, para destacar “faltas”, dificuldades, concebendo-os como inferiores ou incapazes.
As contradições também têm relação com o currículo, com o PPP das escolas, visto que, em grande parte não contemplam a diversidade e a inclusão escolar destes indivíduos com necessidades educativas especiais ou em situação de desvantagem.
Durante o ano letivo, F.Q.C. é “avaliado” trimestralmente, por meio de parecer descritivo com relação aos conteúdos trabalhados a partir de objetivos pré-estabelecidos, sem considerar as suas possibilidades e competências, pois deixa claro que é elaborado com parâmetros estabelecidos a todos, sem levar em conta a individualidade, o tempo, o desenvolvimento de cada um, o processo, o contexto, enfim.
A “avaliação” que vem sendo realizada sobre F.Q.C. ao longo de sua escolaridade contradiz com uma proposta inclusiva. Considero que, como a avaliação não é condizente com o indivíduo em questão, em nada serve para nortear a prática do professor, em nada contribui para o desenvolvimento de F.Q.C. , e muito contribui para o seu fracasso escolar e para a exclusão.
O Estudo de Caso assume um papel de grande importância quando identifica o indivíduo e norteia a prática pedagógica a partir das especificidades constatadas.
Faz-se necessário, repensar o papel da educação no que se refere a inclusão para que venha a contemplar a diversidade de nosso contexto escolar e social. Nesta perspectiva, a escola deve buscar trabalhar na direção de heterogeneidade, possibilitando lugar e espaço para a diversidade.
Comments (14)
Graciela Rodrigues said
at 4:01 pm on Apr 11, 2009
Seu primeiro relato está bom Luciane, agora nos próximos focarás em um estudo de caso relacionando com as leituras e orientações de cada Unidade, bom trabalho!
Graciela Rodrigues said
at 2:16 pm on Apr 21, 2009
Muito boas suas relfexões a apartir dos textos e da realidade investigada. Vamos somente ter cuidado nas nomenclaturas por exemplo "ato educativo/inclusivo/integrador" como tu entendes este ato? Aguardo seu esclarecimento. Bom trabalho!
Ciclone said
at 9:46 am on May 4, 2009
Ok, aqui vão algumas explicações...
A nomenclatura “ato educativo/inclusivo/integrador” foi utilizada para dar a noção de dimensão e/ou amplitude que as ações da prática docente devem ter no âmbito escolar. Refiro-me a prática docente que possa de fato educar, promover a aprendizagem atendendo à diversidade existente no contexto da sala de aula, e neste sentido, incluindo a todos de acordo com a individualidade presente, e ainda, ser um ato educativo integrador, por agregar aprendizagem, realidade dos envolvidos, bem como, por completar e complementar o ato de educar.
Espero ter sido esclarecedora, e um grande abraço!
Graciela Rodrigues said
at 10:27 pm on May 4, 2009
Sim, entendi o quiseste dizer. Aguardamos seu início da unidade 3, bom trabalho.
Ciclone said
at 1:59 pm on May 7, 2009
Olá professora Graci, aguardo teus comentários...abraços!
Graciela Rodrigues said
at 10:46 pm on May 7, 2009
Muito bem Cris, reflexões pautadas em dados da realidade e a leitura da Unidade. Apenas faltou anunciar teu estudo de caso, aguardamos. Abraços!
Graciela Rodrigues said
at 12:49 pm on May 10, 2009
Estudo de caso, condizente com a proposta. A Escola fica em Torres?
Ciclone said
at 4:09 pm on May 27, 2009
A escola fica localizada na zona rural de Três Cachoeiras, conforme consta na publicação da Unidade 2, Torres só foi mencionada pois é a cidade onde F.Q.C. nasceu.
Um abraço!
Graciela Rodrigues said
at 1:40 pm on May 28, 2009
Olá Luciane o relato apresentado na unidade 4 contemplam de forma satisfatória as informaçoes solicitadas para a unidade. Abraços!
Graciela Rodrigues said
at 7:33 pm on Jun 7, 2009
Oi Lu! Informações referentes a unidade 5 contempladas, apenas coloque uma explicação breve do que significa estágio pré-silábico, a Escola trabalha a partir desta perspectiva de Emília Ferreiro? Aguardamos complementação.
Ciclone said
at 11:47 pm on Jun 13, 2009
Olá professora Graciela, acrescentei alguma coisa, mas talvez não o suficiente para quem lê. Em breve trarei melhores explicações direcionadas ao nível acima citado.
Um grande abraço!
Graciela Rodrigues said
at 9:16 pm on Jun 14, 2009
Certo Lu, bjs!
Graciela Rodrigues said
at 7:36 pm on Jun 22, 2009
Interessante as informações trazidas sobre as reprovações, servem para refletirmos como as escolas tratam deste tema super importante.
Graciela Rodrigues said
at 11:28 pm on Jul 10, 2009
Olá Luciane! Seu texto está contemplando um repensar sobre a avaliação bem interessante e relacionado ao seu estudo de caso, Muito bem articulado com as leituras.
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